2012 e a Marcha das Vadias

30mai12

Fiquei muito tempo em silêncio em relação a esse assunto. Mas ontem, após uma bela leitura, vi o quanto eu sou a favor da famosa “Marcha das Vadias“. Afinal, a luta é justa! Precisamos realmente acabar com a ideia de que a mulher estuprada provocou tal crime. Isso não existe! É um absurdo se dar conta disso assim, tão tarde! Mas, é tão comum, né? Nós mesmas às vezes comentamos umas com as outras “ahh mas olha a roupa que ela estava usando, pediu, né?”. Não, não é.

E por que “vadia”? Bem, esse termo vem do inglês, de slut, mas se a gente parar para pensar, até que serve muito bem! Afinal, aquela mulher que se veste e transa como quer é chamada de que mesmo?

Slut Walk começou em Toronto, no Canadá. Em uma universidade, um policial que dava uma palestra sobre segurança no campus universitário argumentou que as estudantes deveriam evitar se vestir como vagabundas (!) para não se tornarem alvo fácil de estupros. Leiam mais a respeito aqui. Diante da declaração infeliz, as estudantes decidiram protestar. E com razão! Pelo menos ao meu ver.

Isso me lembrou até a declaração da Xuxa em rede nacional (indico esse texto aqui!) esses dias, que causou graaande indignação e  nos fez lembrar do quanto as mulheres acabam se sentindo culpadas ao sofrer esse tipo de agressão. E não, nós não temos culpa.

Mas, eu não vim aqui discutir se você acha certo ou errado um assunto tão polêmico e carregado de pré conceitos. Vim apenas compartilhar o texto que me fez refletir muito e ver o quanto ainda agimos de maneira preconceituosa e machista quando o assunto é a mulher.

Abram suas mentes ;) e me poupem das rosas no dia 08 de março…

Sobre vadias e a louça suja

Com a provocação estampada já no modo como se referem à sua mobilização, as mulheres que integraram a Marcha das Vadias em diversas cidades do país nesse fim de semana recente escancararam o peito nu para desafiar um sistema que há séculos teima em fazer recair sobre elas o peso da proibição. Apesar dos sensíveis avanços em relação à condição feminina na sociedade ocidental – se comparada à realidade vigente até a primeira metade do século XX – ainda vivemos num mundo em que se espera da mulher é que ela sirva. Sirva de mãe, esposa, dona de casa, professora, prostituta, faxineira. Ou sirva de modelo da “mulher bem-sucedida”, empreendedora, liberal, independente – aí então valorizada pelo caráter excepcional de sua condição, confirmando assim a regra ainda vigente.

Por força das próprias rebeliões, as mulheres foram conquistando direitos na sociedade atual e garantindo pouco a pouco, ao menos, a igualdade nas condições de exploração. Mas se como profissionais as mulheres encontram hoje maior facilidade para vender sua força de trabalho, como protagonistas de suas próprias vidas ainda esbarram na violência cotidiana de uma sociedade fundamentada nas prioridades do macho. O feminismo, movimento que primeiro colocou o problema da opressão patriarcal na ordem do dia, ocupou-se de atacar esse modelo, durante muito tempo sacrificando vaidades em nome da luta pela igualdade. Já as manifestantes que marcham no Brasil em 2012 não querem sacrificar porra nenhuma: entendem que já sacrificaram demais durante gerações inacabáveis em nome do medo e das convenções.

E é nesse não querer sacrificar nada – nem as pernas de fora, nem a inteligência, nem o direito de parir ou abortar de acordo com suas escolhas e necessidades – é que se funda um feminismo menos carrancudo, mais debochado, saudavelmente provocativo. Um pós-feminismo, dirão alguns. Mas como quer que chamemos o movimento em curso, seja lá qual for o nome pelo qual a História o designará em registros futuros, o fato é que não cabe mais ao orgulho nem à razão do macho estabelecer o que é certo para elas.

Já era. Podemos esquecer.

Depois que uma mulher tem a coragem de sair para as ruas ostentando faixas nas quais celebra alegremente o “ser vadia”, não há mais nada que possa pará-la. O medo de “cair na boca do povo” acabou; o pior dos flagelos morais que assombrava a mulher do passado – ser acusada de puta, amante, lésbica, de gostar de trepar e gozar – está esvaziado, é motivo de riso, inspiração para mostrar os peitos em público e, conforme o gosto da dona de cada corpo, exibir também os pêlos. Nenhum peito caído é feio, nenhuma axila sem depilação é desonrosa. Feio e triste é suportar o fantasma de uma vergonha que não é sua a oprimir o corpo.

E os homens nisso tudo?

Bom, os mais sensíveis, inteligentes e um pouquinho mais corajosos para reconhecer que a tradição do macho alfa é tediosa, cansativa e afetada, estão obviamente comemorando junto com as mulheres. Os mais medrosos e assustados, ou escondem-se atrás de chistes grosseiros, ou apelam para a agressão pura e simples mesmo.

Aqui no Rio Grande do Sul teve até radialista mandando as tais vadias pra cozinha lavarem a louça. Emplacou, com uma forcinha dos colegas de trabalho e do peso corporativo da emissora dos patrões (o programa chama Pretinho Básico, e vai ao ar pela rádio Atlântida FM), um assunto do dia nas redes sociais com suas expressões visionárias. Um gênio, o rapaz. Conseguiu, de uma só vez, cumprir o desserviço de reforçar um preconceito histórico que assola as mulheres e conquistar a antipatia geral por parte de todas e todos que defendem a superação dos velhos tabus.

No auge do seu humor iluminado, o cara nos presenteia com uma pérola que só poderia ter saído da boca de um ermitão. E ao tentar dissimular mais tarde a intenção grotescamente preconceituosa de seus comentários, ainda aproveita a oportunidade para gerar mais burburinho nas redes com a genial hashtag #ChupaVadia – que, graças ao apelo massivo da rádio em que trabalha, atingiu o primeiro lugar nos trending topics do Twitter.

O mais esdrúxulo é que provavelmente estejamos tratando daquele tipo de cidadão que fica chocado com as notícias que reportam crimes de abuso sexual contra mulheres e crianças. Deve se perguntar que tipo de animal é capaz de cometer tais atrocidades. Só nunca deve ter se perguntado o tamanho do estrago que pode causar com suas piadas infames, quando o tema é tão delicado, e o seu público – o público de uma emissora jovem – tão inclinado à confiar na inocência de tudo que soa engraçado.

É contra esse imaginário truculento e auto-indulgente que marcham as vadias. E nós, que também estamos aprendendo que o significado de vadia pode ser reinventado, marchamos com elas. A louça suja fica para os otários que não percebem que os tempos estão mudando.

E agora eu jogo a bola…bora fazer a Marcha das Vadias em Joinville?

[texto retirado do Face, postado por Atílio Alencar]

[imagens - reprodução]



5 Responses to “2012 e a Marcha das Vadias”

  1. Te falar que ainda estava bem por fora disso tudo e tive a feliz ideia de entrar no seu blog hoje. Assino embaixo viu. Chega de pré conceitos.

  2. Olha, Rê, esse assunto andou rendendo bastante! Até no Facebook! E, entendendo o motivo de tudo, também concordo!

  3. 4 Mel

    Sou da Paraíba, um dos estados mais machistas do país.
    “Mulhé macho sim senhô”… lembram?

    Vai ter Marcha das Vadias dia 04 de Agosto de 2012 em Campina Grande (cidade de interior ainda por cima, onde o machismo é mais violento)!!!!

    Pois é, as coisas estão mudando…

    Graças… GRAÇAS A CORAGEM DE POUCOS!

    VOCÊ que está lendo isso agora: não seja mais um no meio da multidão machista! Assuma a responsabilidade pessoal pelo que diz, ouve e vÊ!

    Denuncie, exponha sua opinião. Principalmente se VOCÊ for mulher!

    Chega de passividade e covardia!

    Somos mais da metade da população!
    Mulheres unidas jamais serão vencidas!

  4. O Feminismo ta destruindo as mulheres e feminilidade…


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